Calvin Harris há um bom tempo figura entre os nomes mais bem pagos da música eletrônico. O DJ que já não está tão ligado ao segmento sempre apostou em parcerias com nomes conhecidos da música pop/hip-hop e conseguiu levar a ideia de David Guetta a outro patamar, deixando para traz alguns dos principais elementos da e-music e criando faixas radiofônicas, grudentas e que se encaixam bem nas pistas de dança.

Escocês entrega pop de qualidade, deixa zona de conforto e instiga público com sonoridade cheia de grooves

Agora, com Funk Wav Bounces Vol. 1, Haris dá um passo além, desconstruindo algumas de suas principais apostas sonoras, dando evidência a elementos orgânicos e entregando a pegada perfeita para o verão do hemisfério norte (posteriormente do hemisfério sul). O produtor, mais uma vez, reuniu um time bem conhecido do pop, mas não só para emular a sonoridade de cada um deles – o que Steve Aoki deve fazer em Kolony -, mas para estimular esses cantores a entregar performances que se encaixem no clima/conceito pensado para o álbum.

E só por isso Harris merece destaque. No entanto, com uma rápida olhada na lista de convidados é possível ver nomes como Frank OceanPharrellKaty PerrySnoop DoggJohn LegendFutureAriana Grande entre outros, sem que isso sifnique mais do mesmo, já que suas vozes e veias musicais não dominam o disco, mas sim trabalham para levar o conceito do álbum – uma mistura entre o funk orgânico e o calor do verão – adiante.

Logo de entrada, as duas primeiras faixas “Slide” e “Cash Out”, chegam como um sopro do vento quente do litoral. “Cash Out”, especialmente, mostra algo que será ouvido por diversas vezes no disco, o início “acelerado”, uma quebra no meio da faixa, e um arranjo de piano (instrumento orgânico) que faz o corpo dançar quase automaticamente. Assim, Harris entrega algo completamente fora de tudo que já havia produzido antes em conjunto com performances honestas e cheias de groove de ScHoolboy QPARTYNEXTDOOR e D.R.A.M., algo que permeia praticamente todas as participações do projeto.

No decorrer das faixas é possível notar que o álbum se sustenta muito bem, com variações de arranjos e momentos criados para tocar no rádio do carro, no escritório ou em qualquer lugar no qual o seu único desejo seja aproveitar um momento descompromissado. E isso se deve, principalmente, por causa das nuances finas que se ajustam sem sobressaltos e que são colocadas de forma precisa em pontos importantes de cada faixa. Algo que garante sensações diferentes a cada nova audição.

Entre os principais destaques do disco que tem tempo total de 37 minutos (duração ideal para manter a vontade de ouvir mais) está “Rollin”. Faixa que apresenta arranjos simples, com elementos sonoros que lembram a infância e, mais uma vez, coloca a sonoridade do piano em conjunto com sintetizadores que conversam de forma precisa, sem drops ou quebras desnecessárias. Uma faixa com a função clara de gerar a sensação de uma viagem calma e tranquila.

Porém, como nem tudo pode ser perfeito, o disco perde um pouco de sua intensidade em “Holiday”, possivelmente pela forma como Snoop Dogg entrega seus vocais. De qualquer forma, a participação de John Legend e Takeoff, mais o arranjo sonoro criado por Harris, ainda são capazes de manter a vibração do projeto viva. “Skrt on Me” segue pelo mesmo caminho, perdendo um pouco do conceito sonoro ao tentar misturar uma sonoridade que emula algo latino mais a voz de Nicki Minaj alterada por um vocoder.

“Feels”, ainda bem, coloca tudo no lugar e mostra alguns dos principais segredos e artimanhas para se fazer uma boa música chiclete. Os vocais característicos de Pharrell, a sonoridade leve, para tocar em qualquer lugar e hora. Nesse momento a aposta de Harris em um padrão para suas criações fica ainda mais audível: As faixas começam aceleradas e seguem para um tempo diferente – quase sempre no centro da música -. No caso de “Feels”, a quebra acontece graças ao riff de guitarra que valoriza e destaca ainda mais a ideia.

“Faking It” abre o segmento final do disco, com uma sonoridade mais sincopada e marcada, ela faz com que um clima diferente surja durante a audição e coloca novamente em destaque o trabalho com a alternância de cadências rítmicas, detalhe que mantém a atenção na faixa durante todo o tempo. Isso mostra outra aposta diferente de Harris, já que, ao contrário da fórmula que aposta em drops e graves extremamente pesados para que o público se mantenha focado, o produtor cria mudanças quase subliminares que garantem que as faixas não soem como algo pasteurizado e sem surpresas. É algo que empolga, principalmente vindo de alguém que costuma dominar as pistas e estações de rádio ao redor do mundo.

Por fim, o disco encerra com a singela “Hard to Love” que conta com vocais de Jessie Reyez(facilmente confundida com Macy Gray). A última faixa, apesar de sua simplicidade, também conta com uma evolução de elementos sonoros que colabora com a boa dinâmica do disco.

Por fim, Funk Wav Bounces Vol. 1 é uma forma de valorizar os ouvintes, graças a elementos que vão além do convencional quando se pensa em música pop e, principalmente, mostra um produtor/DJ e seus convidados acertando quase tudo com uma criação fora da zona de conforto. Um disco que chega como um sopro de novidade real para o pop – afinal de contas Harris já deixou a EDM para trás há algum tempo – e evidencia que ele não só está antenado com seu público, mas também com a necessidade de puxar sonoridades para frente.

Um belo acerto, de certa forma ousado, e que pode concretizar a mudança de ares do produtor, fazendo com que ele saia – em definitivo – do segmento da música eletrônica e se posicione como uma estrela do pop – ouça o disco na íntegra.

fonte: Omelete

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